Sobre a Dor e o Luto - Funerária São pedro
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Sobre a Dor e o Luto

 

Resumo da tese de Sandra Rodrigues, Psicóloga

 

“É possível dizer adeus? Repercussões de Múltiplas Perdas e o Desaparecimento de Pessoas”, Tese (doutorado), – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Psicologia, 2014.

A psicóloga Sandra Ribeiro Oliveira, na sua tese de doutoramento com o título “É possível dizer adeus? Repercussões de múltiplas perdas e desaparecimento de pessoas em contextos de desastre”, explica-nos o essencial sobre a dor e o luto.

 

Assim, a psicóloga divide o tema da dor e do luto em cinco partes fundamentais:

 

  1. Sobre a importância da vivência da dor;
  2. Ajude-se a si mesmo a recuperar;
  3. Ajude os outros a recuperar;
  4. Tenha particular atenção às crianças e aos adolescentes;
  5. Dê particular importância à ritualização e permita-se à sua personalização.

 

Relativamente à primeira parte – sobre a importância da se viver a dor – a autora apela à importância do choro. Chorar é um modo de expressar o que pensa e sente em relação à pessoa que morreu, e é fundamental para recuperar dessa perda. De facto, o luto representa o início de um percurso que é, muitas vezes, assustador, aflitivo, dominante e, às vezes, solitário. Mas é um processo único. E como é único, ninguém sofre exatamente da mesma maneira. A sua experiência será influenciada por uma variedade de fatores: o parentesco que tinha com a pessoa que morreu; as circunstancias em que ocorreu a morte; o seu sistema de suporte emocional; e as suas bases culturais e religiosas.

 

O primeiro conselho que a autora dá é o de não tentar comparar o sofrimento com o de outra pessoa ou tentar supor acerca de até quando irá continuar a sentir essa dor. Deve tentar viver “um dia de cada vez” para que o seu sofrimento vá desaparecendo ao seu próprio ritmo.
Neste sentido, a autora considera fundamental que fale com alguém sobre o que sente.
Expresse a sua dor abertamente. Partilhando o seu luto com outras pessoas é o caminho certo para a recuperação.

 

Falar com alguém que também está a sofrer, que não o confronte, é também fundamental. Evite as pessoas que criticam ou que tentam desvalorizar a sua dor. Podem dizer-lhe “mantém o queixo para cima”, ou “a vida continua”, ou “tens de ser feliz”. Qualquer destes comentários podem ser bem intencionados, mas não tem que aceitá-los. Tem o direito de expressar o seu sofrimento; ninguém tem o direito de lhe tirar isso. Deve estar preparado para sentir Uma Variedade de Emoções (confusão, desorganização, medo, culpa, alívio ou emoções explosivas). Por muito estranhas que algumas destas emoções possam parecer, são normais e saudáveis, aprenda com elas. Ser surpreendido em qualquer lugar, pelas suas próprias emoções, de repente faz parte da experiência do luto, mesmo nas alturas mais inesperadas.

 

Assim, é importante admitir a Confusão. Tal gesto permite conferir tempo às
emoções para alcançar o que a sua mente lhe está a dizer. Este sentimento ajuda a criar isolamento da realidade de morte até estar preparado (apto) a tolerar o que não quer acreditar.
Uma outra questão fundamental, de acordo com Sandra Oliveira, é a questão da tolerância para com os seus limites físicos e emocionais. Sentir-se-á fraco e fatigado. Por isso respeite o corpo e a mente. Alimente-se. Seja equilibrado nas refeições. Descanse. Não tome decisões durante esse período. Além destes factos, importa também desenvolver um sistema de apoio. Encontre as pessoas que lhe dão força e energia. Que reconhecem os seus sentimentos.

 

Relativamente à questão da dor no confronto com as memórias, a autora sugere que guarde as suas memórias. As memórias são um dos melhores legados que existem depois que morre alguém que amamos. Partilhe-as com a sua família e amigos. Reconheça quais as memórias que o fazem rir ou chorar. De qualquer modo, elas são uma parte permanente da relação que teve com uma pessoa muito especial na sua vida.

 

Conformar-se com o luto não é um decurso rápido. Lembre-se, o luto é um processo, não é apenas um acontecimento, seja paciente e tolerante consigo próprio. Nunca esqueça que a morte de alguém querido muda a sua vida para sempre. O que não quer dizer que não voltará a ser feliz. Simplesmente nunca mais voltará a ser exatamente igual ao que era antes da morte de alguém querido ser um facto na sua vida.

 

Se não conseguir recuperar do luto, procure ajuda. Familiares, amigos, profissionais. Para amar e fazer sentir o amor nos que o rodeiam, é fundamental estar bem. Para se sentir totalmente de bem com a dor do luto, existem seis passos que deve concretizar e sintetizar:

                  Necessidade 1. O reconhecimento da realidade da morte.

                  Necessidade 2. Aceite a dor da perda.

                  Necessidade 3. Lembrando a pessoa que faleceu.

                  Necessidade 4. Desenvolva uma nova auto-identidade sem receio (viúvo,       viúva,     etc.).
                  Necessidade 5. A procura de um significado para o acontecido.

                  Necessidade 6. Receber apoio dos outros

Relativamente à segunda parte, a autora deste estudo refere-se à importância de se ajudar a Si-Mesmo a recuperar. Para tal, permita-se sofrer, perceba que a sua dor é única e aceite a sua espiritualidade, aquela que lhe permite gerar crenças para ultrapassar este período difícil.  Se estiver zangado com Deus, devido à morte do seu ente querido, entenda este sentimento como uma fase normal do processo de luto.

Já na terceira parte, Sandra Oliveira sugere que se Reconheça o Impacto Dessa Morte no Resto da Família como processo fundamental para ajudar os outros próximos. Se tiver irmão e irmãs, a morte de um dos pais irá, provavelmente, afetá-los de maneira diferente da que está a afetá-lo a si. Afinal, cada um deles teve uma relação única com o seu pai ou mãe, assim cada um deles tem o direito de sentir essa perda da sua própria maneira. Esta morte pode também incitar conflitos de irmãos. Podem não estar de acordo sobre o funeral, por exemplo, ou discutir sobre as finanças da família. Reconheça que estes conflitos, apesar de desagradáveis, são naturais. Faça um esforço para encorajar o diálogo aberto durante este tempo de stress familiar. Mas pode também verificar que esta morte serviu para o unir mais aos seus irmãos. Se assim for, agradeça essa bênção.                  E finalmente, quando existe um dos pais vivo, tente entender o impacto que essa morte teve nele ou nela. A morte de um cônjuge – frequentemente, um companheiro de muitas décadas – significa muitas das coisas que significam para si, filho daquela relação. Isto não significa que seja responsável pelo seu pai ou mão vivo; primeiro, tem de recuperar do seu próprio luto para depois o puder ajudar. Mas significa que, sendo mais jovem e por isso um membro mais elástico, deve ser paciente e compassivo com o seu pai ou mãe vivo.

 

Na quarta parte desta tese, a autora salienta a importância da atenção às crianças e adolescentes face à dor e ao luto. Segundo esta, os adultos sofrem mas as crianças também. Tanto para o adulto como para a criança, a experiência do luto significa “sentir”, não apenas “compreender”. Qualquer pessoa com idade suficiente para amar tem idade suficiente para sofrer. Mesmo antes das crianças falarem, elas sofrem quando alguém que amam morre. E estes sentimentos sobre a morte tornam-se parte das suas vidas para sempre. Assim, para ajudar crianças e adolescentes, importa:

– Que se fale da morte com crianças (porque elas sofrem pela morte do outro e pelo sofrimento dos adultos);

– Que se encorajem as crianças com perguntas sobre a morte. Para compreender, necessitam de perguntar e responder;

– Que responda às questões das crianças, de modo caloroso e sensível. Elas necessitam de entender que a sua tristeza ou alegria é aceite por todos;

– Que partilhe convicções e crenças com a criança, para que ela explore as razões e as suas emoções;

– Que permita que as crianças participem das conversas sobre o acontecido. Apesar de as crianças não compreenderem completamente as cerimónias da morte, o facto de estarem envolvidos no planeamento do funeral estabelece um sentimento de conforto e a compreensão de que a vida acabou para alguém que amavam;

– Que as crianças cresçam com o luto. É fundamental que a dor pela morte de alguém que se ama seja incorporada na criança;

                  Na quinta e última parte desta tese, Sandra Oliveira alerta para a importância de um ritual fúnebre. Porque os rituais são cerimónias simbólicas que ajudam a expressar sentimentos e pensamentos profundos junto dos familiares e amigos. O Batismo celebra o nascimento da criança e sua aceitação na comunidade Cristã. As festas de aniversário honram a pessoa que faz anos e serve para festejar mais um ano de vida de uma pessoa que amamos. O Casamento tem como função afirmar o amor entre duas pessoas publicamente e abençoar essa união. Neste sentido, também o ritual funerário é um meio simbólico, tradicional e público de expressar os nossos pensamentos, sentimentos e convicções acerca da morte de uma pessoa que amamos. Rica em história e abastada com simbolismo, a cerimónia funerária ajuda-nos a reconhecer a realidade da morte, dá valor à vida do defunto, encoraja a expressão da dor que está consistente com os valores culturais, provê apoio a quem sofre, permite aceitar a fé e as convicções sobre a vida e a morte, e oferece a continuação e esperança para viver.

De facto, a ritualização do funeral permite ultrapassar as tais seis fases do processo de luto num só ato, na medida em que cumpre a execução simbólica das suas fases. A saber:

 

                  Fase do Luto 1. Reconhece-se socialmente a realidade da morte.
Fase do Luto 2. Orienta-se a dor da perda de modo objetivo.
                  Fase do Luto 3. Lembra-se publicamente ou de modo familiar a pessoa que faleceu.
                  Fase do Luto 4. Desenvolve-se uma nova auto-identidade em conjunto.
                  Fase do Luto 5. Ritualiza-se em busca de um novo significado para a vida.
                  Fase do Luto 6. Recebe-se o apoio contínuo dos outros.

Um último aspeto importante salientado pela autora é a personalização do ritual, que permite a unificação em torno do falecido de toda a experiência de dor e morte. Tal permite a inscrição social e subjetiva do acontecimento, fazendo do ritual uma espécie de fim terrena e por isso mesmo gera-se a ideia de uma passagem do falecido para uma esfera desmaterializada, mental e tendencialmente subjetiva.